A justiça alemã supõe que o ex-Presidente da República, Christian Wulff, mentiu em vários casos de presumível corrupção passiva que levaram à sua demissão, na sexta-feira passada, segundo noticiam hoje vários jornais germânicos.
As revelações surgem depois de as referidas publicações terem tido acesso ao requerimento da Procuradoria-geral de Hannover ao parlamento federal para levantamento da imunidade de Wulff, apresentado um dia antes de o Presidente democrata-cristão ter resignado.
Os procuradores públicos consideram improvável, sobretudo, que Wulff tenha pagado em dinheiro, como os seus advogados alegam, três estadias de férias financiadas pelo produtor cinematográfico David Groenewold, escreve o Financial Times Deutschland na sua edição de hoje.
No requerimento de 12 páginas, presume-se ainda que Groenewold teria pagado as referidas férias a Wulff e sua mulher Bettina "como recompensa por um favor profissional", na sua qualidade de governador da Baixa-Saxónia.
O casal Wulff e o casal Groenewold passaram três noites num hotel de luxo na ilha de Sylt, no Mar do Norte, de 31 de outubro a 03 de novembro de 2007.
O empresário pagou a respetiva conta do hotel, mas Wulff alegou, através dos seus advogados, que lhe devolveu a parte da sua despesa e de sua mulher em dinheiro.
No mês passado, Groenewold entrou em contacto com a administração do hotel, exigindo-lhes que guardassem silêncio sobre a referida estadia, informação a que o tablóide Bild teve acesso.
Além disso, Groenewold pagou um "upgrade" de um quarto de casal para uma suite a Christian e Bettina Wulff no hotel de cinco estrelas Bayrischer Hof, em Munique, durante uma visita particular do governador da Baixa-Saxónia à Festa da Cerveja desta cidade, em setembro de 2008, mas o ex-Presidente alegou não ter tido conhecimento disso.
Outro caso que está a ser investigado pela procuradoria-geral de Hannnover é a cedência a Wulff, por vários meses, de um telemóvel da firma de Groenewold, e quem pagou a respetiva conta de chamadas, que ascendeu a mais de 900 euros.
Groenewold fundou em 2007, em Hannover, capital da Baixa-Saxónia, uma sucursal da sua firma, a Odeon Film AG, e pouco depois recebeu uma fiança do governo regional para produzir filmes neste Estado federado, o que acabou por não suceder.
Wulff foi eleito Presidente da República a 30 de junho de 2010, para um mandato de cinco anos, por proposta da atual coligação governamental, os democratas cristãos da chanceler Angela Merkel e os liberais.
Após a sua demissão, o Governo e a oposição chegaram a acordo para apresentar um candidato comum a Presidente da República, o antigo pastor luterano Joachim Gauck, que deverá ser eleito indiretamente, a 18 de março, na Assembleia Federal, formada pelos deputados ao parlamento e por igual número de cidadãos nomeados pelos 16 parlamentos regionais.
Na Alemanha, o Presidente da República tem sobretudo poderes representativos, e só pode demitir o Governo por proposta do chanceler federal, mas tem a prerrogativa de promulgar as leis, e é considerado uma autoridade moral suprapartidária, com o poder de intervir na vida pública através da palavra.